Descalços:projeto/proposta.

    Sapatos seguem um porquê ... outros, desviam-se pelo caminho... seja passeando, marchando, correndo ou quase flutuando, são formas passantes que imprimem no espaço algum sentido...
    As formas dão corpo à passagem, mas o que, então, poderão provocar nos atores desta construção-espaço?

 

    Estão os sapatos a simbolizar estes passantes ... São os transeuntes, homens, mulheres e crianças; aquele que está à deriva; o perdido na multidão; o flâneur ...
    Os sapatos traduzem a impressão da passagem, os passos que inventam fronteiras e demarcam a cidade.
    E se "Descalços" dá corpo à passagem, aos passantes valores, sentimentos, tradições e vontades, também dá corpo aos pés descalços: pela fuga, pela pressa...

"Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor de hibisco, o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável - árvores e pedras são apenas aquilo que são. (...)
Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: o torquês indica a casa do tira-dentes; o jarro, a taberna; as alabardas, o corpo de guarda; a balança, a quitanda. Estátuas e escudos reproduzem imagens de leões delfins torres estrelas: símbolo de alguma coisa - sabe-se lá o quê - tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo que é proibido em algum lugar (...) e aquilo que é permitido(...)O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz você repetir o discurso, e, enquanto você acredita estar visitando (...) não faz nada além de registrar os nomes com os quais ela define a si própria e todas as suas partes."
(CALVINO, Ítalo, As Cidades Invisíveis, SP: 1990, p 17)

    Os sapatos de "Descalços" poderiam ser aqueles que saltam dentro de poemas de Baudelaire... tropeçando em palavras como nas calçadas...* como também os sapatos esquecidos pelas Cinderelas que, sem hora marcada, foram esquecidas pelas esquinas.

   

    Aquele que passa imprime sua marca no espaço de percurso, de trânsito, de fluência do movimento urbano. Mas, ao mesmo tempo, o passante carrega algo dos espaços percorridos. Se a cidade pode ser lida como um livro aberto e mutante, ela imprime sua marca naqueles que são seus leitores. A leitura deste espaço urbano, exige que as pessoas se desloquem inteiras. Não é só o olhar que trabalha, todos os sentidos estão envolvidos, todos são chamados a "sentir" a cidade, a descobri-la. E nada melhor que o ato de caminhar para desvendar os símbolos e traços que caracterizam a cidade e seus habitantes. Percorrer a cidade se tornou sinônimo de ler a cidade, em suas múltiplas facetas, complexidades e transitoriedades. Assim, podemos dizer que ir = ler. O caminhante é um leitor do espaço.

    

    A cidade imprime sua marca em nosso corpo, principalmente, através de nosso vestuário. O espaço em que vivemos exige que nos apresentemos aos outros de forma que exista uma identificação imediata, algo que mostre aos outros nossa identidade. As roupas são índices de nossa origem, do lugar social do qual fazemos parte.
    Pés descalços andando em meio à uma multidão de calçados constitui-se num elemento dissonante. Ficamos vulneráveis descalços. Hesitamos no andar, desviamos de poças, pedras, cacos de vidro, pontas de cigarro, pregos. Quando descalços prestamos maior atenção ao espaço percorrido por nossos pés, ficamos atentos ao trajeto, percebemos melhor detalhes que os sapatos ignoram. A planta dos pés reconhece a planta da cidade.
    O sapato é marca registrada de seu dono. Adapta-se à fôrma do pé de quem o usa. Adquire qualidades do dono. Acaba se transformando num signo de identidade. Os sapatos acompanham os destinos dos pés, seja passeando, marchando, correndo ou quase flutuando. Dizem quem somos nós, por onde andamos, que pistas e rastros deixamos para trás. Os sapatos simbolizam os passantes, os atores do espaço urbano.

texto de Caroline Craveiro

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