Pistas - poéticas do objeto 

Nos primeiros dias, os passantes desatentos provavelmente devem ter achado que aquela consecução de sapatos abandonados era pura coincidência, ou nem devem ter reparado nada. Mas a reincidência deve tê-los incomodado ou pelo menos os deixado curiosos. Com alguma atenção, descobririam o que os passantes mais atentos já tinham descoberto: cada um daqueles objetos era um universo rico e cuidadosamente preparado para estar ali, lançado ao acaso; cada um daqueles sapatos traz um trajeto pessoal.  Foram um tipo de demarcação de território. Preparavam o terreno para a obra que viria ocupar aquele espaço nos próximos dias, preparavam o imaginário dos freqüentadores daquele não-lugar para as questões envolvidas nessa obra que viria. As pistas buscaram puxar à tona e manter pairando no ar questões da escultura Descalços, foram uma espécie de instrumento de leitura que antecedeu o objeto.

Na concepção dos objetos que mais tarde chamamos de pistas, buscamos explorar o potencial poético do sapato, enquanto símbolo, enquanto suporte, enquanto metáfora, enquanto objeto estético. Ao conceber cada objeto-pista estávamos conscientes do ritmo apressado daquele canteiro central e sabíamos que os diferentes modos como aqueles objetos seriam visitados trariam diversas possibilidades de leitura: um olhar rápido tem uma leitura fragmentada, um olhar mais cuidadoso, uma leitura um pouco mais elaborada e um olhar acompanhado do manuseio do objeto, uma leitura mais complexa. A visitação a um objeto se assemelha à visitação a um livro: o ritmo e modo como se manuseia o objeto são elementos que fazem parte da leitura. Ao criar uma pista devíamos prever essas várias possibilidades de leitura: a pista já deveria oferecer algo para uma pessoa que tivesse uma passagem rápida por ela, uma pessoa com leitura tipo outdoor, mas deveria oferecer mais a quem pousasse sobre ela, essa pessoa teria o que levar consigo, um poema ou uma duvida que fosse. De outras experiências sabíamos que uma pista que fosse apenas um sapato com uma carta não funcionaria não mais que uma vez, pois a carta é levada e o sapato fica, descontextualizado. O sapato, como cada parte da pista, deveria ser considerado e trabalhado como objeto autônomo.

Entre três e treze de maio de 2000, foi deixada uma ou duas pistas por dia no canteiro central da Avenida Álvares Cabral, detalhes sobre cada uma delas estão nas próximas páginas. No dia quatorze aconteceu a montagem da escultura Descalços, o que marcou o fim da etapa das pistas. Não temos o menor controle ou notícia do fim que foi dado a nenhuma das pistas, mas veja bem, se algum desses objetos foi cuidadosamente visitado, se foi parar numa estante ou numa lata de lixo, não interessa tanto. O que interessa são as possibilidades, é ter podido intervir e modificar a relação das pessoas com o lugar, interessa é ter provocado acasos.

Imagine só uma pessoa andando na rua com um sapato onde está escrito em pequenas letras:


muitas ruas passam por mim
mas nunca chegam
ao meu fim *

...

 texto de Marcelo Terça-Nada!
veja na galeria Pistas descrição detalhada e fotos sobre cada pista.
*poema de Anderson de Almeida.

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